Lenda do Rapalobos

Entre Santa Eugénia e Pegarinhos, num tempo em que as vinhas se confundiam com o mato e o uivar dos lobos rasgava o silêncio das noites frias, surgiu a lenda que dá nome ao lugar Rapalobos.
Conta a tradição oral que um jovem rapaz de Santa Eugénia, apaixonado por uma moça de Pegarinhos, atravessava frequentemente os campos do Rapalobos para a visitar.
Numa dessas noites, para não preocupar a mãe, simulou que se deitava: colocou um travesseiro sob as mantas e saiu silenciosamente.

A mãe, atormentada por sonhos nos quais via o filho lutar contra lobos, despertou e, ao descobrir o engano, partiu em sua busca.
Encontrou-o já em luta desesperada com as feras. Ao ouvir a voz materna, o rapaz distraiu-se por um instante — e esse instante bastou para que os lobos o derrubassem, vencendo-o.
Dessa tragédia nasceu o nome do lugar: Rapalobos.
A etimologia de “Rapa” significa “rapar” — arrancar, raspar, colher — mas na lenda assume um sentido simbólico mais profundo: “rapa” é o jovem que ousou amar, desafiar e morrer.

Do antigo nicho que existia junto ao caminho — uma pequena capela onde se colocava uma imagem — nada resta, destruído com a construção da estrada entre Santa Eugénia e Pegarinhos.
No entanto, a memória persiste viva no imaginário popular, entre vinhas, carvalhos e lembranças antigas.
Rapalobos não é apenas um nome de sítio: é um lugar carregado de significado. Na sua toponímia confluem amor e coragem, intuição materna e destino, o sagrado e o terreno.
Aqui, lenda, memória e topónimo unem-se num mesmo sopro de humanidade e mistério.

Cortesia de José Nogueira dos Reis